A Canção do Amor Silencioso: Uma Crônica sobre "Lord Is It Mine"
- Edu Fontes

- 25 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

O convite chegou como uma declaração de princípios. Eu e Taysa, minha nora, fomos escolhidos para conduzir o cerimonial do casamento de Marcus Eduardo, meu filho, e Verônica, uma filha que ganhei. A razão? Não integrávamos nenhuma comunidade eclesiástica, não éramos especialistas em ritualísticas de igrejas. Éramos, simplesmente, duas pessoas que acreditavam no amor como força superior.
Enquanto preparávamos o texto para a cerimônia, uma melodia antiga ecoava em minha mente: "Lord Is It Mine" do Supertramp. O compositor e vocalista da banda, Roger Hodgson, questionava se existiria um lugar silencioso de serenidade que pudesse ser seu, e eu compreendi que estávamos prestes a criar esse espaço para os noivos. No dia da celebração, observei Marcus e Verônica.
Sete anos se escolhendo, construindo um amor que já era casamento há muito tempo, mas que agora queriam celebrar coletivamente. Enquanto eles trocavam olhares, lembrei dos versos: "Vejo que não há nada a ganhar / Nesta hora de escuridão / Nenhuma necessidade de lutar". A verdadeira paz não estava na luta por reconhecimento externo, mas no refúgio que haviam construído um no outro. Taysa começou a falar, e sua voz ecoava como o clarinete suave da canção: "Não estamos aqui para validar uma união perante instituições, mas para celebrar o que já existe - o amor que encontraram em si mesmos e que transborda para todos nós".
Enquanto isso, eu pensava na jornada de autoconhecimento que os havia trazido até ali. Como a música sugere, "um tempo de tristeza é um tempo para entender". Marcus e Verônica haviam enfrentado dúvidas e pressões - dos que indagavam por que esperaram sete anos, dos "sabotadores da fé" (especialmente da noiva, uma mulher católica) que sempre questionam caminhos diferentes. Verônica, ao fazer seus votos, disse algo que ecoou profundamente: "Encontrei em Marcus não um completor, mas um espelho que me mostrou o amor que já habitava em mim".
Ela havia entendido que o "lugar silencioso" de que fala a canção não é externo, mas interno - e que compartilhá-lo com alguém é expandi-lo, não dividí-lo. No final da cerimônia, perdido em pensamentos e emoções, quase me esqueci do momento em que os noivos trocavam as alianças. Mas, naquele momento em que Taysa me corrigiu, compreendi o verso "mil vozes tentando ser ouvidas" não como um grito desesperado, mas como o sussurro coletivo de amor que nos conecta e reconecta.
Os noivos não precisavam de intermediários para validar seu amor porque haviam feito o trabalho mais difícil: olhar para dentro e reconhecer sua própria centelha divina. Como a música questiona "Is it mine?", eles haviam respondido "Sim, é nosso" - não por direito, mas por autoconhecimento. Enquanto todos celebravam, percebi que a verdadeira força superior não está em dogmas ou rituais vazios, mas no amor que nos liga - amor próprio, amor pelo outro, amor pelo coletivo. Amor. Amor.
Assim como "Lord Is It Mine" fala da busca por um refúgio espiritual, Marcus e Verônica nos mostraram que esse santuário existe quando nos damos permissão para conhecer e amar nossa essência mais pura, sem intermediários que distorcem ou limitam essa conexão. A celebração terminou, mas a mensagem permaneceu: o amor é a força, e alcançá-lo depende fundamentalmente da coragem de nos conhecermos.
Os sabotadores da fé - sejam instituições, pessoas ou nossas próprias dúvidas - perdem poder quando descobrimos que a divindade que buscamos lá fora sempre esteve dentro de nós, esperando ser reconhecida e celebrada.


Mágico!