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ESCUTA SÓ: Notas Desarrumadas e Futuros Possíveis – Cecília, Lola Young e a Arte de Ser Messy

Escuta Só
Escuta Só

Há algo de revolucionário em uma criança que canta sem medo. Algo de feminista em notas quebradas, em vozes que ainda não aprenderam a se calar. Minha neta, Cecília, tem menos de dois anos e já conta com um repertório de sons que não obedecem escalas perfeitas, mas carregam uma verdade que muitas artistas levam a vida inteira para encontrar. Seus pais, conscientes ou não do ato político que é criar uma menina com liberdade para explorar sua voz, enchem a casa de instrumentos, canções e espaço para que ela experimente – sem julgamento, sem correção.


Enquanto isso, do outro lado do mundo, Lola Young canta "Messy" – uma ode ao caos que habita a gente quando decidimos não nos encaixar. A música é um grito suave, uma melodia que abraça a desordem como parte essencial da criação. Lola, aos 23 anos, já é vista como uma voz feminista na música pop britânica, alguém que não teme expor vulnerabilidades e contradições. Críticos a chamam de "promessa", fãs a chamam de "necessária". Mas no fundo, ela é apenas uma jovem que aprendeu a transformar seus tropeços em arte.


E Cecília? Cecília ainda não sabe o que é feminismo, mas já entende, no corpo, o que é liberdade. Quando bate em um tambor, quando imita os vocais distorcidos de um gato ou de uma guitarra, quando ri de seus próprios erros tonais, ela está exercendo um direito fundamental: o de existir sem se explicar. Seus pais não a pressionam para acertar; incentivam-na a tentar. E nisso há uma pedagogia revolucionária – a mesma que, talvez, tenha moldado Lola Young em sua infância.


A psicologia humanista nos lembra que a autorrealização nasce desse ambiente de aceitação. Carl Rogers diria que Cecília está desenvolvendo seu "self" em um espaço sem condições de valor – ou seja, ela não precisa ser "boa" para ser amada. E é assim que surgem as artistas, as pensadoras, as mulheres que não cabem em caixas. Lola Young, em "Messy", celebra a bagunça porque sabe que é nela que residem as descobertas mais brutais e belas.


Cecília ainda não conhece Lola Young, mas um dia vai ouvir "Messy" e talvez se reconheça. Não porque será uma estrela (isso é detalhe), mas porque terá aprendido, desde sempre, que sua voz – desafinada, rouca, alta, baixa, como for – merece ser ouvida.

E que a vida, afinal, é um pouco messy mesmo.


Por Edu Fontes, para a coluna Escuta Só – SoulCostaVerde.com

 
 
 

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