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Escuta Só: O trem Azul e a Esquina Eterna

  • Foto do escritor: Edu Fontes
    Edu Fontes
  • 17 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura



Na iminência das palavras, quando os dedos se preparavam para pressionar as primeiras teclas e grafar a dor alheia – a violência que rasga o asfalto carioca –, eis que o silêncio chegou de repente. Não o silêncio vazio, mas aquele que vem carregado de um acorde final, um riff de despedida que corta o fôlego. Lô Borges, em sua quietude mineira, simplesmente pegou o Trem Azul e foi ter com a lua.


Eu me preparava para escrever sobre outras tristezas, essas tão terrenas e brutais. Mas não contava com o baque celeste dessa partida. Não contava com a ausência do homem que, sem dúvida, foi tudo que ele podia ser.


E como ele foi. Nos idos dos anos 70, com sol e chuva na janela de Belo Horizonte, ele e o amigo Bituca (o eterno Milton Nascimento) teceram não apenas canções, mas um universo sonoro. O Clube da Esquina não foi um disco, foi um território da alma. Lô, com sua inquieta sempre jovial, queria ser o grande herói das estradas sonoras, e o foi. Inseriu na MPB o sopro do jazz, a ousadia do rock, a complexidade do progressivo e a pitada de Beatles, tudo temperado com uma brasilidade profunda e uma mineirice serrana.


Daquela esquina mítica – o cruzamento da Rua Paraisópolis com a Divinópolis, no coração da 'Beagá' –, durante anos dolorosos de chumbo e censura, ecoava uma música que era pura liberdade. Era o som da resistência pela beleza, um segredo compartilhado em forma de melodia. O mundo levou algum tempo para entender que a esquina não tinha clube, era apenas a sede da reunião de amigos, gigantes que, com violões e canções, desenharam o mapa de uma nova paisagem musical.


E agora, Lô se foi. Partiu na estrada definitiva. E a pergunta que fica não é sobre o que ele deixou de fazer – com pelo menos três álbuns prontos e planos futuros –, mas sobre a imensidão do que ele foi. Ele não precisa mais se lembrar de nós, não precisa falar na bota e no anel de Zapata. Sua obra é sua fala eterna.


Ah! Sol e chuva na sua estrada, mestre.


A dor da despedida é amarga, a saudade um vinho ácido. Mas não importa, não faz mal. Porque a sua música fica. E ela é a prova viva de que o artista, o verdadeiro artista, é tudo. É o tudo que você consegue ser transformado em som, em poesia, em legado.


Lô Borges não era o que podia ser. Ele era o que era: pura essência, gênio tranquilo, um dos nossos maiores. E enquanto houver alguém para ouvir “Clube da Esquina”, “Trem Azul” ou “Tudo Que Você Podia Ser”, aquele trem continuará sua viagem infinita, e a esquina estará sempre cheia de amigos, de vida, de música.


Descanse em paz, Lô. E que a lua esteja em harmonia.

 
 
 

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