Escuta Só: "TEMPO PERDIDO E O CHEIRO DE TRAIÇÃO"
- Edu Fontes

- 10 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

"PERDIDO E O CHEIRO DE TRAIÇÃO"
(Crônica para ser lida ao som da canção de Legião Urbana)
Era 1987. O cheiro da cola branca ainda grudava nos dedos quando eu colava a letra de Tempo Perdido no caderno de capa preta. Acreditava, com aquela fé cega de menino de uniforme amarrotado, que o futuro seria feito de gente como a Legião Urbana: indignada, mas esperançosa. O Brasil engatinhava para a democracia, e eu achava que os eleitos para governar seriam como aqueles professores de história que nos faziam decorar o preâmbulo da Constituição com orgulho.
Trinta e oito anos depois, o cheiro que persiste não é o da cola escolar, mas o de pólvora e café estragado. Acordo cedo — não pela ansiedade dos dias novos, mas pelo vício antigo de conferir quantas vezes fomos vendidos durante a noite. O rádio toca a mesma música, mas agora Renato Russo parece cantar para um deputado federal que, de tão patriota, resolveu morar no quintal do império. Ele usa o passaporte verde-amarelo como camuflagem enquanto ensina aos gringos como estrangular nossa economia: "Aumentem as taxas em 50%, sim, senhor presidente, afinal o povo brasileiro adora um suicídio coletivo".
O pai desse sujeito — o mesmo que tentou trancar as portas do Planalto e apagar as luzes da democracia — agora espera o julgamento como se espera um ônibus atrasado: irritado, mas convencido de que a culpa é do horário. Enquanto isso, o filho pródigo faz das tripas coração para converter seu mandato em moeda de troca. Acontece que o real já desvalorizou, e o caráter nunca esteve em alta.
Nas fábricas do interior, os operários escutam a mesma notícia como quem leva um soco no estômago: "Vamos parar a produção". O chefe anuncia com voz rouca que não há mais para quem vender. O aço, o café, a soja, o peixe — tudo encalhado porque um brasileiro de bandeirinha do Brasil na lapela achou mais lucrativo fazer média com quem nos vê como colônia. O curioso é que os mesmos que gritaram "não vai ter terceira via!", agora aplaudem a via-crúcis do trabalhador brasileiro.
Renato avisa no meu fone: "Todos os dias quando acordo / Não tenho mais / O tempo que passou". Mas o tempo não passou, não. Ele foi roubado. Roubaram os dias em que acreditamos que política era sobre bem comum. Roubaram a noção de que soberania não é slogan de camiseta, mas arroz no prato. Roubaram até a indignação, que agora vem em formato de meme, mastigada e digerida antes mesmo de chegarmos à reflexão.
O menino de 1987 queria mudar o mundo. O cinquentão de 2025 sabe que o mundo não muda — ele é arrastado. Arrastado por esses sujeitos que confundem pátria com patrimônio, e que tratam o povo como herdeiro incômodo.
A música termina. Fico imaginando se, em algum lugar, um garoto cola letras de protesto no caderno, achando que os versos podem consertar o futuro. Tomara que sim. Tomara que ele não descubra tão cedo que há homens que nascem para trair, e outros — a maioria — para limpar a sujeira que eles deixam.
O dia escurece. Amanhã teremos menos empregos, mais impostos, e a mesma ladainha de "brasileiro não desiste nunca". Mas desistir é luxo de quem tem alternativas. Nós, os otários de plantão, seguiremos acordando cedo, ouvindo Legião Urbana e fingindo que ainda não entendemos o óbvio:
O Brasil não perde tempo. Ele é perdido.



Cirúrgico, como sempre.