ESCUTA SÓ: Eu Vi o Meu Passado Passar por Mim: A Lua, a Guerra e o Círculo sem Fim
- Edu Fontes

- 29 de jun. de 2025
- 2 min de leitura
"Eu vi o meu passado passar por mim" — e ele se parece demais com o presente. A canção Tendo a Lua, d’Os Paralamas do Sucesso, começa com essa linha que poderia ser o lamento de um povo alijado, de uma nação esgotada por ver a história se repetir como um pesadelo. Hoje, no conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos, o roteiro é antigo: potências traçam linhas no mapa, controlam recursos, decidem quem pode ou não ter poder — e os céus, que deveriam ser de todos, viram rotas de mísseis.

Há uma ironia cruel na forma como as guerras se repetem. O petróleo, hoje, é o que o ouro foi em outras invasões, o que o sal foi em antigas rotas de dominação. O Irã, quarto maior produtor mundial, vive sob ameaças e sanções não por ser uma ameaça real, mas por desafiar a ordem dos donos do mundo. Os mesmos que invadiram o Iraque sob falsos pretextos, que bombardearam Hiroshima em nome de um "fim justo", agora ditam quem pode ou não ter tecnologia nuclear. "O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu" — e talvez por isso mesmo seja tão perigoso. Ícaro ousou voar perto do sol com asas frágeis; Galileu foi censurado por revelar que a Terra não era o centro do universo. Hoje, quem desafia a narrativa dos poderosos é tratado como herege.
Enquanto isso, a lua — eterna, distante — assiste ao mesmo espetáculo de sempre: homens em trajes de presidentes e generais brincando de deus, enquanto povos são reduzidos a números em manchetes. "Tendo a lua aquela gravidade / aonde o homem flutua" — mas a humanidade insiste em cair. Flutuamos entre breves momentos de paz e longos períodos de destruição, como se não aprendêssemos nunca.
A canção dos Paralamas, sem querer, virou um manifesto não apenas sobre amor, mas sobre resistência poética. Num mundo onde o céu de Galileu é controlado por satélites espiões e drones, talvez o que sobreviva seja mesmo o céu de Ícaro: frágil, rebelde, cheio de sonhos que os generais não podem calcular.
A pergunta que fica é: quando a história passar de novo, será que vamos reconhecê-la? Ou vamos deixar que a lua continue sendo, como na música, um lugar que "merecia a visita, não de militares, mas de bailarinos" — um símbolo do que poderíamos ser, se déssemos ouvidos à poesia em vez da guerra?
Porque no fim, enquanto os impérios caem e se levantam, a lua permanece. E ela não escolhe lados — apenas reflete, silenciosa, a luz que ainda nos resta.



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